Existe essa sombra com peso de toneladas, sobrevoando a minha alma.

09:56


Existe essa sombra com peso de toneladas, sobrevoando a minha alma.
Essa frase desconexa, sem sentido, beirando a loucura metafórica é tudo o que eu posso fazer pra expressar um pouco desse sentimento. Sombras não pesam, segundo o dicionário elas são somente uma ‘obscuridade produzida pela interceptação dos raios luminosos por um corpo opaco’. A alma é uma ideia abstrata, uma teoria, talvez.
Você pode se identificar um pouco com essa minha ideia louca de expressar esse sentimento estranho que nasceu em mim desde minha mais terna idade. A sombra pesada, o medo da morte.
Não, não a minha, mas a de quem está ao meu redor. Ligo-me aos meus com fios tão fortes que os defini como feitos de diamante. Tem material mais incorruptível? Não sei. Posso dizer que essas ligações não serão rompidas nem com o inevitável advento da morte. Sei que vai acontecer, e que não vai romper o fio, e esse é meu medo. Quando os nossos afetos passam para o outro lado dessa linha invisível e indefinida, os nossos laços começam a puxar nossa alma, bambear nossas defesas, e um pouco de nós ultrapassa a linha também.
A perda, dura, cáustica e indigerível, puxa nossa mente para a necrose. Vem a depressão, a desesperança, o buraco sem fim que engole lembrança e devolve as lágrimas.
Vivo com esse peso de toneladas, essa sombra que sussurra de todos os lugares e de nenhum ao mesmo tempo, dizendo que é inevitável, que a coisa vai acontecer a qualquer momento, como já aconteceu. Esse peso persegue os de alma mais propensas a ele, eu sei que sim.
As pessoas perdem entes queridos todos os dias. Ouvem frases como: descansou em paz; Deus quis assim; o céu está em festa; os anjos o levaram; agora não sofre mais...
Minha acidez interior se remexe e corrói. Não, ninguém está em festa! Não, ninguém tinha que descansar! Essas frases prontas não descem e os protestos azedam meus afetos de forma a me fazer calar para não desnudar logo o que queria falar. Entendo que essa é a forma que aprendemos a lidar com a morte, consolar quem conhecemos e encarar o que não entendemos muito bem.
Mas para mim, isso não funciona e não vai funcionar nunca.
Essa minha inerente revolta com a finitude da vida parece que nunca vai sair de mim; e sim, eu temo o que ela pode me tornar num futuro.

Nem sei para que escrevo esse texto, nem para quem. É só essa necessidade intensa e impossível de contar, de colocar para fora esse peso, essa sombra... Uma sombra que pesa mais de toneladas. 

You Might Also Like

1 comentários

  1. Achei seu blog procurando por resenhas sobre um livro de Neil Gaiman; e achei inspirador (pela sua descrição) ser uma escritora nova. Eu pretendo me aventurar no mundo da escrita também (está a caminho ainda minha obra), e visto isso em comum, fui ler o blog no geral e o título desta postagem me chamou a atenção.
    E coincidentemente com um tópico que já parei pra pensar inúmeras vezes ao longo dos anos, sobre a morte e justamente essa indignação por sua finitude... achei interessante sua metáfora de "Quando os nossos afetos passam para o outro lado dessa linha invisível e indefinida, os nossos laços começam a puxar nossa alma," ... consegue passar realmente essa ideia de que algo a sobrepuja para além daqui, neste peso de sua alma estar sempre ligada aos demais, e este "fio" inquebrável não se romper.
    A morte sempre foi algo complexo de se lidar... alguns tem mais facilidade, outros não, acontece. Inevitabilidade pode ser tanto pesadelo quanto bênção (esta última visto que não há o que fazer, logo não haveria porque sofrer, é algo que independente de ti).
    Well, não quis debater tanto a ideia, mas divagar, porque é um assunto rico de interpretações, e achei interessante sua abordagem, e também compreensível, mesmo que não seja a minha opinião.
    Mas algo que mais achei interessante é como você utilizou a escrita para amenizar algo dentro de ti; o que fica claro quando você termina com "É só essa necessidade intensa e impossível de contar, de colocar para fora esse peso, essa sombra...".
    Concordo especialmente nesta magia da escrita, de nos permitir transmutar sentimentos em palavras, e ver às vezes como de algo destrutivo ou triste conseguimos extrair algo belo como um texto ou poesia.
    Lerei mais sobre o que escreve. Tenha uma boa noite.

    M.D.

    ResponderExcluir

Todos são livres para mostrar opiniões, mas aqui desde que não haja nenhuma ofensa.