Crônica dos meus 25 anos

12:46

Há cinco meses comemorei meu 25º aniversário, e estranhamente essa data me deixou reflexiva, um pouco mais do que costumo ser. Peguei-me introspectiva pelos cantos, pensando em tudo que vivi nesse pequeno conjunto de anos que passou tão rápido, como um vendaval que me transformou de uma garotinha magrelinha e pálida, em uma mulher magrela e pálida. (Risos).
Piadas à parte, levei um tempo para tomar coragem de escrever esse texto, e um dos motivos é uma certa covardia que eu tenho, o medo de magoar as pessoas com minha opinião, de receber aquela mensagem raivosa dos opositores e ter que responder para defender meu ponto de vista. Que nada mais que um ponto de vista, e não uma verdade absoluta. 
Antes de começar, eu gostaria de te dizer, caro opositor, que tudo o que eu disser aqui é apenas a humilde e tendenciosa opinião dessa que voz fala, e não caracteriza, de forma alguma, que eu desconsidero que sua visão de mundo seja válida. Portanto, comentários ofensivos serão desconsiderados. 
Vejo-me hoje como um ser humano melhorado. Em constante melhora, mas não regredido. Recebi uma visita quando fiz vinte e quatro anos, de uma garota que amo muito como amiga, me dizendo que, por ter largado minha religião, mudei para a pior. Discordo piamente. 
Quando eu era uma pré-adolescente, sofri Bullying severo na escola. Tive vontade de morrer, entrei em depressão em silêncio, achava-me feia, deslocada, indigna de ter amigos e de ser amada por alguém. Encontrei-me com pessoas da igreja evangélica, e lá eu ouvi coisas a cerca de um Deus que nos aceita como somos, que para Ele somos lindos, perfeitos, apesar de pecadores. Foi esse o Deus que eu internalizei, e isso ainda está em mim, e morrerá comigo. 
No meio daquelas pessoas eu me sentia bem; passei a conversar com esse Deus diariamente, e isso me tornou uma pessoa diferente. Eu tinha amor próprio, e esse foi o maior presente que Deus me deu. 
Porém, os anos se passaram, tornei-me ativa nos grupos de jovens, dança e tudo mais. Passei a perceber que não era só Deus na jogada. Tinha disputa de poder, fofoca, dinheiro e inveja para dar e vender. Só que eu estava tão envolvida naquilo, tinha tantos amigos que eu amava, e que até hoje amo, que não conseguia me desvencilhar da teia. 
Notei que durante as ministrações da Palavra, aquele que falava se sentia inteiramente usado por Deus, incólume de pecado e opiniões distorcidas, somente por sido colocado à frente. Ouvia contradições, preconceitos, distorções de interpretação, algumas grosserias até. Não foi só isso, é claro, mas isso me fez sentir uma coisa estranha crescendo em mim, uma dúvida, que foi crescendo e crescendo... 
Vejam bem. Com quinze anos, minha mente entrou em colapso. Eu amava a Deus, mas a religião não. Fui vista como rebelde, ameaçaram tirar de mim os afazeres que eu tinha. Ouvi de um “líder” meu, que até mesmo o toque do meu celular era demoníaco (uma música do 3 Doors Down, há! Imagina se ele ouvisse minha playlist do Metallica agora). Mas eu continuei lá, mesmo que o Deus dentro de mim gritasse que eu deveria amar aqueles que eles desprezavam, que eu não era arrogante como eles diziam, e que meu coração tinha algo que o deles não tinha – amor incondicional ao próximo. 
Sei que sou errada, uma enorme pecadora. Eu poderia fazer uma lista dos meus defeitos, mas não é minha intensão parecer uma pessoa humilde em redenção, e sim ser sincera. Sou toda errada e sempre serei.
Mas lá, apesar dos meus amigos amados, encontrei pessoas que me fizeram sentir um lixo. Eu amava os gays, mas me disseram que era errado o que eles faziam. Eu amava meus amigos da escola, mas diziam que eles eram “do mundo”. Eu queria beijar um garoto bonito que conheci, mas me disseram que isso era pecado. Hoje vejo que tudo isso era balela pura. 
Hoje, depois de passar por um processo enorme de transformação e desapego, eu me libertei da religião. Não que ela seja ruim. Sei que muitas igrejas fazem trabalhos incríveis, e que muitas pessoas se beneficiam delas, se sentem bem, ouvem coisas boas e absorvem isso para o bem. Agradeço aos anos que passei lá, pois esses anos me trouxeram irmãos que terei para a vida toda. 
Só que na minha mente eu tenho algo bem claro: DEUS NÃO É RELIGIÃO. 
Algumas pessoas parecem achar que quando chegarem ao céu, haverá na entrada uma placa com a denominação da sua igreja, ou uma com o nome da sua religião estampado em letras garrafais. Placas não salvam a alma de ninguém. 
Fico pensando nessas pessoas que acreditam que se sacrificarem a própria vida numa explosão no território inimigo, ceifando centenas de vidas, chegarão a um tipo de Paraíso em que terão disponíveis para si 70 virgens. Parece absurdo para você? É a religião deles. São apegados a ela como você é a pegado à sua. O homem bomba pode não ser igual aos religiosos de quem eu falo aqui, mas a base do pensamento é parecida. Verdades absolutas em favor a ideal de deus. 
Eu sinto um ódio mortal dos homens bomba. Eles tiram vidas achando que serão salvos. Sinto raiva também, em menor grau, é claro, de todos que tentam me dizer o que fazer, que minha alma será condenada por isso e por aquilo. Eu não exijo dos meus amigos que eles pensem igual a mim. Se você me disser que não concorda comigo, continuarei a gostar de você. Mas se você me disser que não vai gostar de mim se eu penso diferente de você, meu afeto por sua pessoa diminuirá em grande proporção. 
O Deus que eu internalizei lá atrás, há uns treze anos, ama você, sendo gay, lésbica, católico, evangélico, espírita ou qualquer outra coisa. O Deus que eu tenho no meu coração, me dá forças para acordar todos os dias e dedicar horas a ouvir os problemas das pessoas e me empatizar com eles. Ele me inspira, me consola, me abre a luz no fim do túnel. 
O Deus que eu internalizei no meu coração não me diz que eu preciso recorrer a um homem todas as vezes que precisar tomar uma decisão. Nenhum homem me diz que eu sou errada, não mais. Nenhum homem que peca diariamente, vai me acusar de ser pior que ele. 
Se você precisa disso, se permite que alguém te pormenorize e diga que sua natureza pecaminosa é errada está fadada ao demônio, e por isso você precisa ser igual a ele, sinto muito, mas tem algo muito errado com você. 
Pecado é ferir o próximo com palavras ou com força física. É matar uma pessoa e deixar o luto perseguir os dias dos que ficaram. É passar por cima do outro para conseguir suas vitórias; é agir com má fé com o outro; é deixar a inveja te dominar e perseguir o que não é seu; é subjugar um grupo de pessoas ao que você pensa ser a “palavra de Deus”, interpretando ao seu bel prazer, permitindo que os outros te venerem como veneravam deuses de bronze no Egito. 
Continuo sendo toda errada, mas conquistei o direito de ser quem eu sou, e me sentir amada, querida e livre. Hoje eu posso fazer minhas orações e pedir meu perdão, sem precisar usar as palavras ensaiadas que um homem proferiu num culto ou celebração. Deus entende nossa linguagem, e sei que Ele me perdoa. 
Nos meus momentos mais obscuros, lá estava Ele, me ensinando a ser forte, me dizendo que eu tinha amor ao meu redor, e que eu não precisava ser aquela rebelde sem causa de antes. Deus só me deu presentes e boas lições. 
Deus me ama, do jeito que eu sou. 
Ele também te ama, do jeito que você é. Lembre-se disso, mesmo que sua fé dê a Ele outro nome, ou outra forma. De todo jeito, a fé é a fé, e eu consigo respeitar a sua fé e acha-la linda, pois é ela quem move a sua existência.

Juliana Daglio
Autora de “Uma Canção para a Libélula I e II” e “O Lago Negro”.

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2 comentários

  1. Posso resumir seu texto inteiro em uma única palavra: Lindo.
    Suas palavras são tão sinceras e verdadeiras, que passam sensações através de cada parte da leitura. Desde a angústia de sua tristeza até o amor refletido em seu coração no fim. As ideias são claras e objetivas, escritas sem enrolação e da forma mais simples e carinhosa possível.
    Realmente gosto desta sua ideia sobre Deus e a religião, já vou deixar bem claro que concordo totalmente com ela. Olhando as coisas por este lado, qualquer pessoa pode se sentir melhor e livre para seguir sua vida sem se preocupar com dogmas ou castigos divinos.

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  2. Texto incrivelmente lindo. Por muito tempo eu também achava que estava certa quanto a servir em uma certa religião, porém minha indagação era em relação ao dinheiro que as pessoas ganhavam em nome de Deus e todos esses detalhes sobre essa hierarquia e julgamento que há dentro das igrejas.
    Conheci muitas delas, e sempre senti a necessidade de servi-lo dentro de uma que me fizesse saber que estou realmente mais próxima dele, quando o busco. Não que eu não consiga me aproximar sozinha, em minhas orações particulares, mas a igreja me fortalece e vejo Deus usando de pessoas sem elas ganharem pra isso, as vezes elas não sabem nem ler, mas a sabedoria que Deus da a elas quando abrem a boca, manifesta-se em mim um enorme contentamento de saber que é Deus ali e não o homem.
    Eu acredito que Deus ama a todos sem exceção, não há ninguém que possa ser melhor do que o outro.

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