Um conto pessoal: A moça que era como um espelho

11:37



Ela observou os passos da mãe pelo corredor da farmácia, rumo aos fundos do estabelecimento. A mãe sempre parava ali para verificar a pressão sanguínea, algo que a menina não entendia muito bem, mas que virara parte de seu cotidiano. Ficou sentada nos bancos da entrada, abraçada à sua lancheira vazia, balançando as pernas curtas no ar.
E então, algo inusitado aconteceu. Entrou um  garoto, uns doze anos de idade, o que o colocava quatro anos à frente dela. Ele usava um boné de listras vermelhas meio deslocado na cabeleira despenteada, tinha o sorriso maldoso, pele manchada e um cheiro de meio ácido que incomodou o nariz da garota. Ela se encolheu, estreitando os ombros em seu casulo imaginário que nada poderia protegê-la.
— E aí, menina, como você chama? – questionou ele, com a voz ousada e cínica.
Ela não respondeu.
— O que tem na sua lancheira? Passa “aê” ´pra mim?
Com medo, sem coragem de responder, ela era teimosa o suficiente para não ceder aquela ameaça que era o garoto. Fechou a cara de choro e tentou se afastar. O garoto segurou seu braço.
— EU VOU BATER “NU CÊ”! – Exclamou ele, rindo em seguida.
A garota ia se levantar para fugir, mas uma sombra enorme tapou o sol que entrava pela janela.
— Solta ela – ordenou uma voz feminina assertiva.
O garoto fitou a jovem com olhos desafiadores, que ela retribuiu na mesma medida.
— Você é o que dela? – retrucou ele, largando o bracinho fino da garotinha.
— Sou quem pode defendê-la. Um pesadelo para você, se não sumir agora daqui. – Ele não se mexeu, então ela deu dois passos em sua direção e se agigantou em cima dele. – Dê o fora, ou você vai provar do mesmo veneno que usa para assustar garotinhas indefesas.
Então bateu o pé para assustá-lo e obteve sucesso. O garoto levantou e saiu correndo, derrapando de medo da entrada do estabelecimento. A garotinha a fitava assustada, mas um pouco maravilhada com a força da moça que a tinha defendido, esta que agora sentava ao seu lado, tão perto, segurando a respiração e fitando de soslaio os pés cruzados e agora parados da outra.
— Ainda está assustada?
— Um pouco – choramingou a garotinha, com sua voz esganiçada. – Ainda bem que você chegou. Acho que eu ia apanhar.
                — Não ia – respondeu a moça, subitamente. – Ele ia só ameaçar, depois ia rir um pouco e ir embora.
— Como você sabe?
A moça emitiu um riso curto e virou o rosto para a garotinha.
— Acredite, eu sei.
Por um momento as duas se olharam quietas. A garotinha costumava ser tímida, andar de olhos baixos e falar daquela forma aguda e chorosa de quem tem medo do outro, mas estranhamente não conseguia tirar os olhos da moça. Pensou, despreocupadamente, que ela tinha olhos claros como os seus, e que seu cabelo louro escuro estava longo e bem arrumado, enquanto o seu encontrava-se amarrado no alto da cabeça, deixando alguns fios claros, feito ouro desbotado, espetados e mal penteados depois de um dia de escola.  
— Você é corajosa.
Ela notou a reação da moça: lágrimas nos olhos, bochechas vermelhas.
— Eu não tenho muito tempo – emendou com a voz embargada. – Preciso te dizer umas coisas.
A garotinha sentiu-se sobressaltada, mas cerrou a mandíbula sem conseguir responder.
— Preciso que não pense mais no que aconteceu aqui hoje. Preciso que não pense em mais nada das coisas que a fazem se sentir pequena, e pense nos seus sonhos. Seus sonhos não são pequenos. Seus amigos imaginários vão existir. Você vai dar vida a eles. Você é especial, e eu não vou te desapontar. Juro.
— Não entendi...
— Não vou te desapontar. Algumas vezes vai se sentir sozinha, em outras vai achar que a vida não vale a pena. Mas isso tudo é uma mentira. Você precisa parar de inventar mentiras escuras. Eu não vou te desapontar.
Uma lágrima quente rolou pelo rosto da moça, e então ela se inclinou para  a menina e depositou um beijo em sua testa pálida. A garotinha quis recuar, mas aquele toque pareceu necessário, pareceu urgente e ao mesmo tempo delicado. Sentiu-se completa, estranhamente em casa.
— Como você se chama? – perguntou, querendo choram também, mas de uma forma emocionada. Parecia que uma peça de um quebra cabeças tinha se encaixado nela.
— Sabe meu nome. Sabe nosso nome. Você sabe quem é, e sabe que é amada.
Elas se olharam profundamente por mais um instante até que ruídos de passos no corredor interromperam o momento. Rapidamente a moça se levantou.
— Quando ela chegar, conte o que aconteceu e diga que conseguiu se defender sozinha.
— Mas eu não posso mentir.
— Não estará mentindo – emendou ela.
A garotinha então conseguiu compreender o que tinha acabado de acontecer. Respirou fundo e tentou apreender cada uma das características da moça a sua frente, pois queria memorizar tudo e guardar para momentos difíceis.
A moça lhe sorriu novamente e saiu pela porta sem olhar para trás. Quando a mãe retornou, ela ficou em pé e contou a história toda com o peito estufado. A mãe se assustou de inicio, e disse a ela que quando meninos maiores tentassem agredi-la ela deveria chamar um adulto. Claro que deveria, e ela sabia disso, mas sorrindo ela respondeu a mãe:
— Quando eu crescer, serei uma mulher corajosa, e nenhum garoto mal vai me assustar.
— Eu sei disso filha. Confio em você.
A garotinha segurou a mão da mãe e naquele momento a amou mais do que nunca. Quando chegaram à beira da calçada, esperaram por um carro antes de atravessar. Ela olhou para a mãe mais uma vez, pensando ainda na moça que era como um espelho.

— Mãe, eu não vou desapontar você. 

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1 comentários

  1. Que lindo <3
    Estou encantada pela sua escrita, e louca para ter logo seus livros, haha.

    Abraços.

    ser-escritora.blogspot.com

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